30 de janeiro de 2017

des(espera)



O despero voltou a bater em minha porta. Após tantos anos... Aqui está ele novamente. E no meio de tantas lágrimas, eu digo um tímido "olá" que sai acompanhado de um sorriso (aquela velha alegria de reencontrar velhos amigos). E é um sentimento muito estranho esse que me faz sorrir entre as lágrimas... Não sei nem dizer se estou feliz ou triste. Nunca sei de nada. Ah! Mas que falta de consideração a minha, estou desesperada.
Ele está me encarando com a minha própria expressão: sorrindo e chorando. É provável que esteja tentando me comover, para que eu o deixe entrar. Como se eu alguma vez tivesse impedido sua entrada, muito pelo contrário, sempre o recebi muito bem e sempre fui uma ótima anfitriã. Ele, por outro lado, nem sempre foi uma boa visita, pois enquanto eu chorava e desaguava as minhas dores, ele só sabia me receitar uma coisa: o suicídio. "Você vai ver", dizia ele, "não há entorpecente melhor. Procure tirar a prova do que digo com a dona morte, que você vai ver que não minto". Ah, mas eu já estava cansada de flertar com a morte! Porque era só nisso que resultava nossas conversas, em muito flerte. Ela que sempre estava bêbada da vida dos outros, vinha de mansinho, tentando me seduzir, doida pra beber da vida que corre pelas minhas veias. Nunca me entreguei, porque sou difícil de me entregar a essas coisas, mas também nunca recusei flertar junto e confesso que me era divertido chamá-la pra perto e sussurrar em seu ouvido o quanto eu gostaria que ela me pegasse de repente. E ela me prometendo o descanso eterno. Qual nada! Se utilizando do meu maior desejo pra me fazer ceder. Só por vingança eu falava que não, eu falava que não poderia abandonar o desespero que sempre me foi um bom amigo. Assim, enciumada, ela debochava do pobre do desespero, afirmava que ele era um péssimo amigo tanto para mim quanto para ela, porque ele era a linha que ligava e a distância que separa ela, a morte, da minha vida. E nessa hora eu caía na gargalhada, um tombo feio, mas só esse tombo pra me fazer ver o quanto eu também estava bêbada, de minha própria vida e de ilusão (esta última que é um veneno!).
No fim das contas, nem desespero e nem morte. Quando eu os convidava para almoçar em casa, nem um dos dois aparecia. O desespero sumia sem deixar rastros, nem paradeiro. E a morte fazia menos de meu alimento, falando que não gostava de arte, que arte só servia de tempeiro para dar sabor melhor à minha vitalidade, que arte pura nunca fez bem para o estômago dela e que ela só aceitava almoçar comigo quando o almoço fosse a minha vida (temperada com arte, por sinal).
Desse jeito é que aparecia a solidão, quem nunca me abandona. Essa, fareja um solitário de longe! Vinha para comer tudo e comer nada, e ainda trazia uma bebida amarga, caso quisesse me embebedar de tristeza. Além do mais, tinha bons conselhos. Me alertava contra qualquer entorpecente. A mais sincera de todos.
Ela bem sabe do que eu preciso, por isso me faz companhia.

10 comentários:

  1. Que texto <3. Me identifiquei super.
    Adoro o jeito que escreves, que por sinal muito bonito.
    Beijos.
    http://g-irldreams.blogspot.com/

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    1. Muito obrigada, moça. Só não sei se identificar seja uma coisa boa... Mas enfim, sigamos acompanhadas da solidão.

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  2. Caraca, não esperava esse fim. O texto tá tão eu hoje. Acho que tuas palavras vieram me fazer companhia. Sobra choro.

    Beijo,
    Mafê

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    1. Sobra choro, sobra mar quando se trata da profundidade humana... me alegra saber que essas expressões servem ao menos para companhia.

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    1. Meu pensamento é de que a vida é somente a espera...

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  4. Você é ótima com as palavras, com as metáforas, com as personificações. Quanta vida nesses sentimentos que, por vezes, têm mais em si é de morte! Que descrição incrível de momentos que, enquanto vividos, são tão difíceis de explicar...!

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    1. AII QUANTO AMOR! ❤ Bondade sua pensar assim. Mas mesmo assim muito obrigada!

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  5. Tem textos que a gente lê e apesar de achar incrível a escrita, a gente reconhece um padrão fictício nas entrelinhas. Do que acabei de ler eu senti a realidade, a profundidade, acho até que estou um pouco mais murcha por te pegado um pouco da sua dor, e não é ruim: é empatia. Mesmo que através de palavras a gente pode dividir. Fica mais pesado pra alguns, mas saber que você (talvez) vai sentir-se mais leve já nos deixa feliz. Obrigada por compartilhar aqui.

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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    1. Que linda você! Mas não é um texto para se ficar triste, posto que a solidão pode ser algo feliz também...
      Sim, a escrita deixa-nos muito mais leves.
      Muitíssimo obrigada pelo carinho e pelo comentário!

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