26 de setembro de 2016

A mãe que mata a filha


Porque eu sou filha minha.
E daí que já atingi a maioridade? Desde que me pari, eu sou filha minha. Há muito tempo sou responsável por mim mesma. Em tudo culpada, por tudo culpada. E eu não quero comer carne por motivos meus. Eu sou filha minha. Devo satisfação à mim mesma. De tanto ser tratada como estranha, eu me estranhei dos outros, afastei-me, e me adotei como filha ao me aproximar de mim. Assim, sinto gratidão pelos que me estranharam, pois ao descobrir-me como filha, pude deitar meu olhar materno sobre os outros que me cercam... Agora, meu coração é imenso, intenso... E intensidade é bem isso: é viver eternamente ou morrer jovem; seja lá qual for a situação ou a condição do sujeito.
Ao me receber como filha, eu chorei as minhas dores e passei a esforçar-me em me manter serena. Cuido de mim. Pode ser isso amor-próprio, mas eu repito: é amor próprio de mãe. E eu os perdôo, os perdôo a todos pelas dores, os perdôo enquanto os aceito como amores. Porque eu sou filha minha e mãe deles.

Intensa... intensa me faço. Intensa... intensa me mato.

4 comentários:

  1. Neste ano, também eu tive que me tornar filha minha, além de filha de minha mãe; maturidade assumida tem dessas coisas, mas difícil é o baque, é o saber lidar com a situação sem aqueles 9 meses de preparo emocional...

    Texto belíssimo, Katerine!

    Desejo-lhe uma semana linda ♥

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    1. Pois é, Lari... Essa descoberta de ser nosso próprio filho/a é um baque e tanto. Mesmo eu ainda estando sob as asas superprotetoras de meus pais, alguma coisa me tirou abruptamente da zona de conforto e, junto ao risco e à liberdade, eu acabei por me adotar...

      Muito obrigada, moça! Tenha uma linda semana também.

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  2. Tu me deixou sem palavras, li e reli varias vezes e ainda não sei me explicar como compreendo que não entendo, como você me foge ao entendimento. Deve ser por isso que comento, porque não tenho palavras mas me sobram sentimentos.
    Saudações!

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    1. Olá, moço! Fico feliz em te deixar sem palavras, porque assim não me sinto sozinha nesse estado de faltas e sobras, estado de desentendimento. Mas não é aquela felicidade perversa, longe disso!

      Saudações!

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