11 de julho de 2016

A mecha esquecida


Pois bem, eu sou uma moça, dentre tantas, tantas dentro: eu sou uma moça. Não gostaria de citar-me em terceira pessoa, portanto, citarei-me em quinta: eu sou uma moça. Moça esta, de olhar perdido e mecha de cabelo esquecida... São duas, é bem verdade. Duas mechas a emoldurar o rosto. Mas quem se importa que sejam duas? As mencionarei como uma, estas duas mechas, porque representam uma característica singular em moças, para tanto as singularizo. É bem verdade também que a mecha não é esquecida, é de propósito (e não por acaso) que elas fogem das amarras do coque. E eu finjo que também não fujo, pois nem tenho do que fugir, mas me esqueço em qualquer lugar, como a mecha de cabelo. Quem olha pensa. Pensa que a mecha foi esquecida; e foi! A moça esqueceu-se em qualquer olhar, qualquer cena, qualquer arte, qualquer sentimento... Esqueceu-se tão bem que nem se lembra da mecha. Mas se lembra de muitas outras coisas, das vivenciadas e até das não vividas.
Caem os fios, aos dois lados do rosto, só para dar graça às feições sem graça. Mas a graça maior está no penteado desgrenhado, onde os cachos emaranham-se embaraçando os pensamentos, de mechas e de moças, da moça da mecha esquecida.

2 comentários:

  1. Tu és e isso, é tudo. É bom o que tu és,como o mundo.

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    Respostas
    1. O mundo não é bom, não para mim. Mas fico feliz por saber que vês bondade no que sou.
      Obrigada pela visita

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