7 de março de 2016

Leveza de ser...



Encarava o terço amarrado na porta do guarda-roupas. Era toda a crença incutida num pequeno objeto. As bolinhas bejes que sua avó tantas vezes segurou ao fazer suas preces representavam o que há de mais divino no esperançoso coração de agora. Ainda com um pesar, ela foi capaz de sussurrar:
- obrigada, Deus.

Era alívio e dor nas palavras que expressavam sensações fundidas num único sentimento. Maria estava morta, que tristeza. Maria finalmente morreu, que descanso. Inácia se olhava no espelho. Acabara de se banhar. Agora sentia-se limpa, renovada. A água havia levado qualquer pedaço de Maria que durante muito tempo esteve na pequena Inácia. Aliás, é possível afirmar que do tanto de Maria que havia nela, não havia espaço para Inácia. E ela não se sentia vazia, como é de se presumir, se sentia leve.
No meio dos seus quatorze anos de idade não era de se esperar tamanha prisão. Mas passou. E liberta ela se dá ao luxo de pensar: "Foda-se!". Em uma de suas primeiras crises existenciais, a menina já carrega um assassinato. Fora capaz de matar a si mesma. E de Inácia Maria Moreira das Paixões, morrera Maria, que pena, vivera Inácia, qual melhor. Se libertara do seu outro ser, que nem podia ser porque não era ela. Era uma outra que presa, a aprisionava. Enquanto Maria, sempre vivera por se calar em situações em que seus pensamentos corriam gritantes, deixava de falar as poucas e boas por receio de magoar, era passiva e sofria com isto. O que pensaria todos aqueles que a cercavam, fora, por um longo tempo, sua maior preocupação. E por eles, a Inácia morria para existir somente Maria. Mas Inácia Maria não pôde permitir que tamanha malvadeza ocorresse, e no momento de escolher entre Inácia e Maria, optou por findar com aquela que usurpava de seu ser. Não foi uma morte que lhe levou pedaço. Ela sabia que aquele membro não a pertencia. Foi como pisar num inseto. Nenhum remorso.
Cansada, a menina Inácia declarou-se decidida:
- daqui pra frente vou falar minha opinião, falar minha verdade para não ser falsa, mas sim sincera. 
Sabia que podia acabar agindo de forma idiota, isso de nada a importava, contanto que agisse feito ela própria.
Mais uns segundos pensando que poderia soar mal-educada e até magoar:
- Foda-se! - foi capaz de finalmente dizer. Só Deus ouviu. Contudo, a menina não teve pudor, tinha mais medo da avó do que de Deus e já nem se importava se a velhinha ouvisse as palavras sujas que saíam de sua boca. 
Sua boca... Enfim, ela se sentia dona de si. Tanto que neste momento Maria parecia uma personagem na qual durante muito tempo trabalhou. Era outra. Ou melhor, outrem.

Os pingos do cabelo molhado ainda caíam sobre seus ombros. Ela então pegou o pente e, como que a se acariciar num gesto de candura de quem dá boas-vindas, ela se penteiou.

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