9 de maio de 2015

Contúsica: Geni e Zepelim


Conheci a música hoje, já escutei umas 1278782787348758467102902321 vezes e me senti na obrigação de compartilhá-la. Creio que isso se deve especialmente à excepcional interpretação da Letícia Sabatella, mas nada disso desmerece a música e a melodia.
Essa música reflete na questão da moral e da sociedade e o conto muito me lembrou a história da personagem Fantine de "Os miseráveis", Victor Hugo, quem leu deve entender... A similaridade não acontece tanto pelos contos, mas com o significado, o tema e o contexto abordado. A composição da música se deve ao grandioso Chico Buarque (amor da minha vida).






Geni e o Zepelim


De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de ideia!"
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniquidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir
Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni!
Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela)
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai, Geni!
Vai com ele, vai, Geni!
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni!
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

4 comentários:

  1. Pronto, agora viciei na música também... Que divosa a Letícia Sabatella está com essa interpretação!

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    1. Não tô mais conseguindo parar de ouvir ela >-<
      Muito admirável!

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  2. Oi, eu fico tão feliz de ter despretenciosamente cantado essa pérola musico-teatral do Chico-master, acompanhada do maravilhoso Paulo Braga, ao piano e pessoas bacanas escreverem e refletirem sobre o tema, a estética, curtindo e compartilhando. Acho que esse tem sido um estímulo muito importante pra meu trabalho. Muito obrigada!

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    1. Wooooow! Confesso que tenho sérias dúvidas se este comentário é fake ou não. Mas isso não é algo com a qual eu deva me preocupar...
      De qualquer maneira a interpretação é excepcionalmente admirável, de modo que dá vontade de fazer com que o mundo inteiro a conheça para poder se encantar tanto quanto eu me encantei!
      Sou eu quem agradeço ;)

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