26 de fevereiro de 2015

Um motivo, várias motivações: Capítulo V - O sonho contado no sonho...


[...]
Agora, além de irritada eu estava magoada. Eu poderia começar um drama em torno do Lázaro e dos meus sermões. Mas preferi me acomodar na inquietude do silêncio, porque o meu silêncio sempre foi inquieto. De orgulho ferido, sai do colégio na companhia do Henri, este também quieto (ou seria inquieto?) com seus pensamentos.
Em casa, cheguei mais cansada do que nunca. Nem tanto no físico, era mais pra cansaço psicológico mesmo. Devo ter queimado neurônios demais, planejando os sermões que nunca foram ditos ao Lázaro, e já havia chegado a conclusão de que nunca seriam. Não dar sermões a ele era uma espécie de castigo, privá-lo de minhas palavras assim como ele me privou das dele. Esse é o mal da mágoa, querer magoar o outro.

Não dei atenção a ninguém em casa, ninguém se importava. Subi direto para o meu quarto, joguei a mochila no amontoado de bagunça que havia numa cadeira e, ao mesmo movimento da mochila, me joguei na cama. Tudo que eu desejava naquele momento era não ter de sair dali. Deixar o mundo se ferrando lá fora sozinho e ficar deitada naquela cama aconchegante até o fim, ou quem sabe pela eternidade. Infelizmente não é assim que tudo funciona.
Minha mãe abriu a porta de meu quarto, apressada.
- Tô indo jantar com a minha amiga. Cuida do seu irmão. Logo mais tô chegando.
A amiga era a psicóloga dela, que ela fazia questão de chamar de amiga só porque foi a mulher que a ajudou quando ela estava prestes a cair numa depressão. Coitada da mãe, nem parou pra pensar que ela pagou por aquilo.
- Tudo bem... - Eu disse num protótipo de sussurro, mesmo sabendo que aquela altura minha mãe já havia saído de casa.
E quem vai cuidar de mim?

Continuei deitada, como a vítima que sempre sou. Os pensamentos fluíam velozmente, e logo as emoções acompanharam o ritmo. Bastou isso pra eu cair em lágrimas. Após um tempo afogada em mim mesma as lágrimas diminuíram. Surgiu alguém na porta meio aberta:
- A mãe deixou um bolo p... - O Nacinho ficou paralisado - Você tá chorando? - Ele perguntou com um fio de um riso.
- Não. - Eu  não queria conversa.
- Tá sim, dá pra ver no seu rosto.
- Eu estava, mas não tô mais! - Eu retorqui.
Sentei na cama, olhando para as minhas próprias mãos, querendo desaparecer. E o Nacinho continuava na porta, agora mais relaxado.
- Se você p... - Ele se interrompeu, como quem não sabe o que dizer - Tem algo que eu possa fazer pra te ajudar?
"Quem é você?", pensei. Definitivamente aquele não era o meu irmão, não o Nacinho com o qual eu convivi por anos.
A criatura que se dizia "meu irmão" continuava parado na porta, um pouco agoniado.
- Me deixar em paz - Finalmente respondi. Fria e direta.
Ele veio de mansinho e se sentou na ponta da cama, como quem não quer nada.
"O que você fez com meu irmão?" era somente o que eu pensava.
- Eu sonhei contigo essa noite... - Ele distraía seu olhar para seus dedos que brincavam com um pequeno objeto em mãos - a gente tava num jardim e você tava chorando. - Meus olhos também se distraíam com o pequeno brinquedo colorido - Eu te pirracei por isso, como sempre faço. Você ficava me implorando pra parar e eu não parava. De repente você morreu e eu estava sozinho num jardim sangrento. Sua voz ainda gritava implorando, mas seu corpo tava morto. Você tinha morrido chorando sangue... por minha causa. E eu fiquei só. Foi horrível ficar sozinho naquele jardim cheio de sangue.
Fez-se silêncio.
- Eu ainda tenho medo.
Me compadeci. No entanto, ainda me encontrava incrédula. Não podia ser meu irmão. Não aquele. Não tão calmo e sem piadinhas irritantes. Não era a mesma criança do meu dia-a-dia.
Eu estava tão corroída pelo ódio das briguinhas que sempre tive com ele, que nem havia percebido que ele já estava na altura do meu ombro. Mais velho, e certamente mais maduro.
- Toma. Pra te dar forças. - Ele me estendia o boneco com o qual nossos olhos se distraíram. Era uma miniatura do Gokú, só então percebi.
Peguei o boneco meio sem jeito. Era realmente assustador. E era complicado pra mim acreditar naquilo. Tudo parecia sonho, inclusive o sonho contado. Teria algum fundamento real?
Mordi a boca, só pra ter certeza
Não, não era sonho. Mas era tão espantoso acordar pra realidade que até parecia sonho.
De súbito ele se levantou.
- A mamãe deixou um pedaço de bolo e já vou avisando que ele é meu.
Era o ar daquele molequinho irritante, acabando com o clima "irmãos amáveis".

É mãe... parece que em vez deu cuidar dele, foi ele quem cuidou de mim.

2 comentários:

  1. Você é tão suave com as palavras e é gostoso acompanhar suas palavras, seus traços. Ah, eu me emocionei com a sua visita ao meu blog, seus comentários, não sabe o quanto me impulsiona a escrever desse jeito. Até mais.

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    Respostas
    1. Estou muito encantada como sua visita *000* Não sabe o quanto admiro suas poesias e o quanto fico feliz em saber que faço alguma diferença pra alguém..
      Muito obrigada =D

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