4 de novembro de 2014

E o poeta parte junto aos meus 15 anos


Um aniversário é infinitamente mais poético quando se está num velório. E um velório é infinitamente mais triste quando quem morreu era poeta. Querido poeta...
Tudo em volta expressa tristeza. Os ventos inquietos, as nuvens sempre cobrindo o sol e o céu chorando delicadamente. Seria revolta da natureza? Tudo  tão mórbido, tão estranho, tão triste. Teria algum significado? Poderia ser um marco, um sinal, sobre como será essa nova idade. Um aviso do destino sobre será esta nova fase...
O dia estava vazio, porém, não me senti mal, nem solitária. Devia ser eu quem estava vazia... vazia de sentimentos. Ou talvez não fosse isso. Tudo estava confuso aqui dentro, como sempre esteve. O que mais me deprimiu foi ver tanta gente reunida para lamentar... Lamentar! Ah, poeta... No momento em que partiu, espalhou-se tuas dores, deixou para os que ficam os teus sofrimentos, e nem a natureza fugiu da sina, e nem eu, que já não sou mais menina, não nego a consternação. E o velório é melancólico porque tua poesia é agora limitada. Que louca eu, dirigindo as palavras a alguém que não pode lê-las.
No quarto se encontrava a viúva, com o rosto assustadoramente cansado. Me perguntei se ela teria exagerado na dose de calmantes, mas me conformei com a hipótese de muitas horas em claro e muitas lágrimas derramadas. Numa idade tão frágil... O quanto já chegou a viver até os 70? Quantas dores teria compartilhado com seu esposo? "Meus pêsames". É a primeira vez que digo a expressão.
A viúva aproveitou a presença de alguns familiares em seu quarto, para ler uma espécie de carta que tinha escrito logo após a morte dele. Não era nenhum pouco poética, mas tive que poupá-la, o esposo é quem era o poeta.
O tempo ia lento, as pessoas estavam cansadas, enquanto o poeta descansava. Tinha tempo ou não tinha nada? Não sei, talvez nunca saiba e o tempo que me resta possui validade desconhecida.
Não pude ficar até o enterro. Eu tinha outro enterro para comparecer, outras coisas para enterrar...


- Katarine Norbertino

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