20 de agosto de 2014

Escritos achados: Lição para pentear pensamentos matinais


<fingindo que alguém se importa> Gente, não sei se notaram, mas eu decidi acabar com a série de posts (que eu pretendia fazer eternamente) "Dê o play". Sei que isso não tem a mínima importância, mas se algum ser vivente deste vasto planeta gostava de saber quais eram as minhas 5 músicas favoritas de alguma louca categoria que eu havia criado, terá de se contentar com pouquíssimas playlists que talvez eu venha a publicar.
Obrigada pela atenção. </fingindo que alguém se importa>
Então negada, faz pouco tempo que li um livro do perfeito Caio F. Abreu (um Renato Russo da literatura) e me declarei por apaixonada por sua forma de escrita (desabafos) e por sua pessoa. Vou deixar as informações sobre o livro para uma resenha, que sem dúvidas eu ei de fazer, e concluir este post com seu assunto principal... O texto cujo título é: Lição para pentear pensamentos matinais.

Lição para pentear pensamentos matinais



Pensamentos, como cabelos, também acordam despenteados. Naquela faixa-zumbi que vai em slow motion, desde sair da cama, abrir janelas, avaliar o tempo e calçar chinelos até o primeiro jato da torneira - feito fios fora do lugar emaranham-se, encrespam-se, tomam direções inesperadas. Com água, mão, pente, você disciplina cabelos. E pensamentos? Que não são exatamente pensamentos, mas memórias, farrapos de sonhos, um rosto, premonições, fantasias, um nome. E às vezes também não há água, mão, nem pente, gel ou xampu capazes de domá-los. Acumulando-se cotidianas, as brutalidades nossas de cada dia fazem pouco a pouco alguns recuar - acuados, rejeitados - para as remotas regiões de onde chegaram. Outros, como cabelos rebeldes, negam-se a voltar ao lugar que (com que direito?) determinamos para eles. Feito certas crianças, não se deixam engambelar assim por doce nem figurinha.
Pensamentos matinais, desgrenhados, como cabelos finos demais que começa a cair. Você passa a mão, e ele já não está mais ali - o fio. No travesseiro sempre restam alguns, melhor não olhar para trás: vira-se estátua de cinza. Compacta, mas cinza. Basta um sopro. Pensamentos matinais, cuidado, são alterados feito um organismo mudando de fuso horário. Não deveria estar ali naquela hora, mas está. Não deveria sentir fome às três da tarde, mas sente. Não deveria sentir sono ao meio-dia, mas. Pensamentos matinais são um ab-rupto mas com ponto final a seguir. Perigosíssimos. A tal ponto que há o risco de não continuar depois do que deveria ser curva amena, mas tornou-se abismo.
E só vamos em frente porque começam a acontecer as urgências. Enquanto a manhã dispara e o telefone toca e a campainha soa e as crianças precisam sair para a escola e o relógio de ponto ou qualquer coisa assim - incluindo os outros, sobretudo os outros - não esperam. Nada espera, ninguém. Você lava o rosto, finge não ter visto coisa alguma. É possível também ligar o rádio. Um banho frio, o café feito uma bofetada. Há pensamentos-matinais-despenteados que põem o rabo entre as pernas e dão o fora, mas outros - mulheres de Nélson Rodrigues - adoram apanhar.
Quanto mais você bate, mais ele arreganha os dentes e intica para apanhar mais. Isso magnetiza e atrai outros pensamentos, ainda mais descabelados, e até então escondidos. Se era nome, vem um sobrenome. Se era rosto, vem a textura da pele, um cheiro, um jeito de olhar. Se fantasia, ganha cor, e assim por diante. Pensamentos desse tipo são quase sempre proustianos: loucos pelo velho e bom tempo perdido.
Soluções mais grosseiras, há. Como papel higiênico, amarrotá-los, jogá-los na privada, dar a descarga. Acontece que descargas, não quero parecer alarmista, às vezes entopem. E devolvem justamente aquilo que deveriam levar embora, num comportamento que é o avesso daquele para o qual foram programadas. Ah o avesso, esse o problema. Pensamentos assim são um sintoma do avesso. E o avesso é a superfície correspondente, igual em tamanho e forma, a tudo aquilo que você considera o direito. Conhecer de-cor-e-salteado o direito absolutamente não dá direito a conhecer também o outro lado. Sinto muito, mas ele sempre está lá. Incógnito, invisível, inviável. In, enfim.
Por ser assim, desordena-se. Pelas manhãs, mesmo que o de-manhã de alguns aconteça às seis da tarde. Mesmo nos calvos, a cabeleira abstrata pode amanhecer tão eriçada eriçada quanto a da Medusa. E se em vez de veneno a cobras tiverem mel? Tudo depende não me pergunte de quê. Só sei que deve-se olhar direito nos olhos deles, tocar sem nojo nem medo suas mãos cobertas d musgos, teias de aranha. Passar num susto a mão pelos cabelos, reais ou não. Deve-se sempre com a doçura e paciência possíveis nessas situações, mudar rápido de assunto. Ou cair no posso.

O Estado de São Paulo, 19/9/1993
Sei que é bem grandinho, mas vale a pena.

2 comentários:

  1. Nossa, que diferente e interessante, gostei bastante ;)
    Ele fala um pouco de nosso cotidiano, porém com um toque mais... poético (?)

    Já segui seu blog, se você quiser, pode dar uma passadinha no meu? :3 | xoxo | www.quirky-tree.blogspot.com | ♥

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    Respostas
    1. Exatamente isso! O que mais amo no (meu lindo) Caio F. é que ele via poesia em tudo e sabia expressar tão bem...

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