27 de fevereiro de 2014

Um motivo, várias motivações: Capítulo III - Vadia, vadia e... Vadia.


[...]
Quando acordei e dei por mim já era tarde da madrugada. Eu tinha dormido muito, o que não era legal porque eu não ia conseguir dormir mais. Primeiro troquei a roupa, pois ainda estava com a farda, depois fui para o resto da casa. Era estranho o silêncio.
Fui até a cozinha comer algo, eu estava morta de fome. Minha mãe não havia feito comida, então eu comi frutas.
A casa estava completamente silenciosa. O que era estranho porque quando meu pai morava com a gente ele ia assistir TV e sempre acabava dormindo, e a TV ficava ligada durante toda a madrugada, de modo que, toda vez que alguém acordava na madrugada sempre escutava algum som.
Eu até havia me acostumado.
Era um baita gasto de energia, e este foi um dos motivos da separação. Agora meu pai tá com a Michelly, ou melhor, com a Michelly e seus conselhos.
Depois que terminei de comer, apaguei as luzes e voltei para o meu quarto. Peguei o livro que estava em cima do meu criado-mudo desgastado e fui lê-lo.
No início, eu achava a história dele um tanto chata, mas depois começou a ficar boa, porque, como o autor enfatizava, o universo conspirava a favor.
Horas depois, tive que dormir, ou não aguentaria ficar acordada durante o dia.

- Deixa de preguiça e vem me ajudar a fazer as coisas! – Era a minha mãe.
Me sentei na cama, peguei o meu celular no criado-mudo desgastado e olhei as horas. Era um pouco cedo e eu havia dormido pouco. Então voltei a dormir.
- Clarissa, eu não vou repetir. Levanta dessa cama! – Sua voz estava alterada, normal.
- Mãe, eu preciso descansar! – Tentei.
- Descansar o que? Se você não faz nada, nem sequer na escola. Eu estou falando sério Clarissa!!
Eu simplesmente odiava ser chamada de Clarissa, mas mãe é mãe, e nessas situações a gente é obrigado a abrir exceções.
Me sentei na cama novamente.
- Ok, dia. Vamos tentar recomeçar, mais uma vez. – Eu disse sozinha. Como se me dirigisse ao dia.
Depois de enrolar bastante no banheiro, escovando os dentes, eu desci para começar a ajudar minha mãe. Eu tinha que pelo menos tentar ser uma boa filha. Nessas condições, a minha mãe se aproveitou de minha boa vontade, e eu fui literalmente escravizada.
- Clara, passa esse pano direito!! – Ela reclamava.
- Mas eu estou passando!
- Isto tá que nem a sua cara. – Era o modo dela dizer o quanto estava malfeito.
- Ótimo. Então está lindo. – eu tentava demonstrar um pouco da convicção que eu não tinha.
Depois de almoçar e me arrumar, fui para o colégio, mesmo estando cedo demais.
No ônibus voltei a ler o livro, eu já estava quase no fim e já achava o livro ótimo. A história estava muito emocionante, a protagonista estava tendo os melhores momentos mais inesperados e isso me deixou feliz. É incrível, não? A maneira como um livro consegue nos fazer tão bem. Era como se minha vida fosse uma maravilha. O ônibus parou no ponto próximo à minha escola e eu desci. Já havia terminado o livro e estava com um humor ótimo!
Entrei no colégio, cumprimentei alguns conhecidos e segui para a minha sala.
Mais tarde o sinal tocou e a Bruna não tinha chegado, peguei meu celular e enviei uma mensagem rápida:
Onde você tá?
Pouco depois o professor entrou.
Não é no colégio kkkkkkkkk” – Foi a resposta dela. Guardei o celular antes que o professor percebesse.
Eu não tinha achado graça da reposta dela, mas uma certeza eu tinha: ela não iria pra escola naquele dia. O que era ruim pra mim, por que a Bruna era uma das poucas pessoas que faziam meu tempo na escola parecer um tempo bom.
Depois de ter de assistir a duas aulas entediantes de História, tive que aturar Biologia. Mas me esforcei tanto quanto a Sarah, porque também queria ser uma boa aluna. Afinal, eu estava recomeçando.
Logo depois o sinal tocou e era intervalo.
Encontrei o Lázaro e o Henri no refeitório, sentados.
Não comi porque não tive fome e logo depois que eles terminaram a refeição, e que nós falamos de coisas sem importância, o Lázaro sugeriu.
- Que tal a gente fazer aquela brincadeira das características? – A brincadeira das características consistia em: Quando uma pessoa qualquer passasse em nossa frente tínhamos de dizer algo que pensássemos sobre ela, baixo o bastante para evitar encrenca. E isto exigia sinceridade e falta de vergonha.
Depois de eu dar um sorriso de aprovação passou um garoto do 3º D, que era um ativo praticante de esportes.
- Babaca. – Henri praticamente sussurrou. O Lázaro concordou e eu disse:
- Saudável. – Dei um sorrisinho malicioso procurando alguém que estivesse fazendo o mesmo. Nenhum dos dois deu atenção, e comecei a sentir mais falta da Bruna, ela entendia o que eu queria dizer com “saudável”.
Passaram três garotas do 1º F, as três já tinham passado o rodo na metade do colégio, e isto no primeiro ano de estudos.
- Vadia, vadia e... Vadia. – Eu disse e os dois foram obrigados a concordar.
Logo depois passou a Danielle, esta fez questão de cumprimentar.
- Oi genteeee! – Disse, enquanto passava.
- Vadia. – Foi a minha reposta. O Henri caiu na gargalhada.
- Nossa! Pra você todas as garotas daqui são vadias, é? – Observou o Lázaro e eu percebi que ele estava a defendendo.
- Não, só as que realmente se portam como vadias. – Respondi.
- A Dani não age assim! Ela é legal... – Ele disse.
- Ah, sim! “Você poderia me dar umas aulas mais tarde”, – Eu disse, me lembrando de quando ela entregou o caderno ao Lázaro. – “Professor Lá”.
- Quem tinha me chamado de “Professor Lá” tinha sido você.
- Foi uma ironia... Mas faltou pouco pra ela dizer isso.
- Acho melhor pararem de discutir, ela tá vindo aí... – O Henri nos alertou.
- E aí, gente! Cadê a Bruna? – Não fiz questão de responder.
- Não veio hoje. – Respondeu o Lázaro.
- Hmm... Vou indo então, beijos.
E ela saiu.
- Tá na cara que ela só se aproxima da gente pra ficar mais próxima da Bruna e então, ficar popular. – Expressei minha opinião.
- Essa teoria é estúpida. – “Estúpida”, a palavra ressoou em minha cabeça.
- Tudo bem, Lázaro, entenda como quiser, faça sua própria “teoria”, - Eu falava em um tom calmo, quase assustador - só tome cuidado para não se enganar. – Dizendo isso eu me levantei e segui para a sala, ainda com calma.

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