12 de fevereiro de 2014

Um motivo, várias motivações: Capítulo II - Só pra variar..


[...]
E eu sabia que a partir dali, as torturas iriam recomeçar.
Ela entrou na sala com aquela cara entojada de sempre, que se tornou uma expressão de ódio no momento em que seus olhos se depararam com os meus. Eu devia sentir medo? 
- Bom, gente hoje teremos prova surpresa em dupla! – Ela anunciou.
- Professora, mas a sala tem 25 alunos, – Lembrou Sarah, a líder e mais nerd da sala. – Isso significa que alguém sobrará...
A megera deu um sorriso cínico.
- Isso não será problema! Alguém não se importará de fazer só. – Disse ela, com um cinismo maior ainda. – Vamos fazer por sorteio!
Todos começaram a murmurar, obviamente ninguém gostaria de ser tão injustiçado.
- Quer apostar quanto que vai ser eu quem vai fazer só? – Desafiei a Bruna.
- Deixa de ser paranoica, Clara. Ela não te odeia tanto assim.
Desviei o olhar da Bruna, eu bem queria que aquilo fosse verdade.
- Eu vou abrir a caderneta de presença e o nome que cair, será o do mais azarado.
Ótimo! Com a sorte que eu tenho pra tudo e com as desavenças que eu já tive com a professora, na certa seria eu.
E não deu outra.
- E o mais azarado foi... Que peninha! Clarissa Sonere.
- Ok. Parece que ela te odeia muito. Acho que agora o papel de paranoica se inverte. – Me disse a Bruna, em tom baixo.
- Vadia. – Disse muito baixo à megera, não por medo dela, mas por que de tanta suspensão as coisas com o meu pai não iam muito bem. Além disso, eu não podia dar o prazer àquela megera de me suspender, outra vez!
- O que disse, Clarissa? – Perguntou ela em tom intimidador. Simplesmente odiava quando alguém se referia a mim como “Clarissa”, mas vindo dela, era mais natural “Clarissa” do que “Clara”. - O que disse, Clarissa? – repetiu ela pausadamente.
A professora implicando... Só pra variar.
Não respondi.
- Tudo bem, por causa de sua petulância não fará com ajuda. Por que este seria o privilégio do mais azarado, a ajuda.
- Dispenso sua ajuda. – Eu disse novamente em tom baixo, ela não ouviu.


Só restava eu e outra dupla na sala quando o sinal tocou, entreguei a prova e me retirei.
A Bruna me esperava no outro corredor, junto com o Henri.
- Tentei te passar pesca, mas não consegui. – Ela veio me avisando.
- E nem conseguiria, - Respondi. – a megera não tirava os olhos de mim.
- Megera? Que apelido carinhoso para a professora Olívia. – Observou o Henri.
Enquanto saíamos da escola desabafei com o Henri todo o meu ódio pela Olívia, algo que a Bruna e o Lázaro estavam cansados de ouvir.
Seguimos maior parte do caminho, só eu e o Lázaro. A Bruna tinha que encontrar o namorado e o Henri pegava um ônibus diferente.
No ônibus não dissemos uma palavra sequer, o que era completamente estranho, já que se tratava de mim e do Lázaro. Fiquei apenas observando as ruas que se passavam.
Descemos no nosso ponto.
Andávamos num silêncio muito constrangedor.
- Por que agiu daquele jeito mais cedo? – Ele quebrou o silêncio.
- Daquele jeito como? Te chamando de “professor Lá”? – Ele concordou com a cabeça. – Não gosto daquela garota e do jeito que ela se aproxima de nossa turma só pra se tornar popular...
- E é só isso?
- E o que mais teria?
- Nada...
Voltamos ao silêncio constrangedor. Eu gostava do jeito preocupado do Lázaro, sua atenção em saber se estava tudo bem e mais ainda, seus jeito consolador. Não era à toa que ele era o meu melhor amigo...
Fiquei o observando discretamente até chegar à minha casa.
- Tchau Lázaro. – Ele me respondeu com um aceno de cabeça.
Entrei portão adentro.

- Sai daí que agora eu vou assistir a minha série! – Eu disse ao Inácio, meu irmão mais novo e mais retardado.
- Demorou. Perdeu. – Ele me respondeu sem tirar os olhos daquele jogo insignificante.
- Mãe!!! Nacinho tá me pirraçando!
- Pirraçando o quê? Eu cheguei primeiro!
- Mas eu assisto a minha série todos os dias nesse horário, é como se a TV já estivesse reservada!
- Clara, seu irmão chegou primeiro. Agora deixa de implicância e vai trocar o uniforme que eu preciso de ajuda.
Minha mãe apoiando meu irmão... Só pra variar.
Subi as escadas com muita raiva e em meu quarto tive uma decepção maior. Meu irmão havia mexido em minhas coisas.
Fui até a porta e gritei:

- IDIOTA, MEXE EM MINHAS COISAS MAIS UMA VEZ QUE EU TE DESÇO O CASSETE!! – Assim bati a porta com toda a força do mundo.
Logo depois ouvi passos apressados subindo as escadas, a porta se abriu num estrondo.
- Grita dentro dessa casa de novo e quem vai levar um cassete vai ser você! Não respeita mais minha presença nessa casa não, é? E se bater essa porta assim mais uma vez, vai ser você quem vai pagar o estrago! - Enquanto dizia isto, minha mãe fazia uns movimentos bruscos com o pano de prato.
Depois ela saiu estressada.
- E mexe nas coisas dos outros de novo e eu é quem vou te descer o cassete! - Escutei ela gritando com o Nacinho.
Caí na cama de uniforme e tudo, e de barriga pra baixo. Havia cinco coisas que eu mais odiava no mundo. A primeira era o meu nome (que veio de minha tataravó), a segunda era ser esquecida, a terceira era a megera da Olívia, a quarta era que mexessem em minhas coisas e a quinta era receber repreensões das pessoas que amo. E digamos que não é fácil ter que suportar pelo menos quatro das cinco, num único dia.
Peguei o travesseiro cobri a cabeça com força e dei um grito, que foi abafado. Fiquei assim até cair no sono...

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