16 de março de 2018

Latejante



é sombra
foi pele
escura
pelas ruas
negras

pela pele negra a rua é sombra
foi-se
pela foice
um corte
levou um membro
que agora, invisível,
lateja

e como dói!
de dia
e de noite
outros tantos membros
todos invisíveis;
está claro que o escuro sofre extermínio
outros tantos
inteiros
enquanto, no presente, invisibilizados
no passado, açoitados
a mesma história n'outra história
o aniquilamento
e o lamento




em memória à Marielle Franco e Anderson Pedro,
a luta continua.

1 de março de 2018

Imagens sonoras: das obras contemporâneas que me arrebatam



Este post é sobre clips musicais. é sobre minha impressões acerca deles. é sobre meu contato com alguns dos tais.


Amor marginal, de Johnny Hooker


Cada instante desta obra me absorve em seu discurso (verbal e visual), me leva de mim e me enche os olhos. Todo segundo que nele tem é uma infinidade de poesia. Eu sinto o intenso do sentimentalismo presente no vídeo, e eu sinto a liberdade que foi proporcionada pelo sentir... "realidades nascem sorrateiras. o que você sonha em fugir?". É inegável a potência do Johnny Hooker em nos invadir.


O velho e o mar, de Rubel


Vontade. Vontade de vida e vida exercida em vontade e à vontade. Me agrada a sutilidade do Rubel e este clip aspira em mim o que que eu da vida... vida leve, bem vivida e partilhada. é doce e é calmo. um pedaço de mundo.


De passagem, de Cícero


Harmonioso. Sinto que já se tornou repetitivo tudo o que venho falando acerca do Cícero e suas composições, no entanto é imprescindível pontuá-lo.


Gasolina, de Teto preto


Das coisas desse mundo que me fazem crer em qualquer enigma do além-mundo, certamente este é o objeto mais expressivo. A linguagem corporal deste moço supera o concreto: é divino. A música para mim, é também uma espécie de fala divina. há ódio e há exaltação, é a grandeza de Deus dentro da pequenice humana. é o instinto, o ego e a herança.


No surprises, de Radiohead


água. este clip me tem sido como água, ou um banho quente. é uma das obras mais belas e estupendas que já vi. ele existe e parece que não.


Calor da rua, de Francisco, el hombre


Não sei dizer ao certo porque este clip me cativa tanto. Decerto por conta da forma orgânica com a qual a música flui (característico da banda) e também porque eu não o entendo... ainda que o assista pela enésima vez não saberia dizer o que se passa ou qual o discurso, mas gosto. me soa como a existência humana com todos os seus demônios.


Mulher do fim do mundo, de Elza Soares


Ah! Grande Elza! Neste clip há uma díade: a cantora, com sua inquestionável maestria no que diz respeito à música; e a presença de uma equipe seleta na produção (direção e afins).


River, de Bishop Briggs


Neste, a linguagem visual psicodélica é o que me cativa.


Artemísia, de Carne Doce


só ver. ser mulher, infelizmente, ainda é ser tolhida de escolha. e eu sinto que o resgate da ancestralidade é nosso ato mais revolucionário. esta música incita ainda mais o debate do aborto, e isso tem sido necessário, para que ouçam a nós, mulheres...


7 de janeiro de 2018

apagar-me-ei


A minha
vontade é apagar tudo
o que já fiz, porque sinto
que não fiz nada

Mas quisera, nada não existisse
haveria, então, somente o tudo
mas tudo se tornou uma palavra tão banal
que eu sinto que tudo o que escrevo é
tão banal quanto tudo o que já fiz

e minha vontade era não
ter feito nada, para não carregar este sentimento
que tem peso de tudo

e mais banalidades fazem
com que eu queira me esconder
quando minha vontade tem mais a ver
com a vida do que com este banal viver
ao qual os outros se subjugam

Minha vontade era não mais ser um eu
não mais ter algo de meu
porque tudo que diz respeito ao ego
é tão banal quanto o uso da palavra tudo

eu queria
eu Nada
nada queria era não mais ter um corpo
tão sólido e pesado de tanto líquido

queria era ser gasosa
para ser um outro gás a dar vida
aos banais viveres
tal qual poesia;
nada queria
toda (e não tudo) a minha vontade.

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